SED TANTUM DIC VERBUM...

...ET SANABITUR ANIMA MEA.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Noite Silenciosa

Querido Diário,


Vivemos num mundo estridente e dissonante, onde a nossa inepta orquestração, cada vez mais tumultuada, nos afasta  daquilo que deveria ser mais natural em nós, e que é a aproximação com o Transcendente. Sinceramente, se há um instrumento que o demo usa eficazmente,  com certeza é o barulho! Como berram na televisão, diário amigo! Como gritam nos shoppings, nos celulares, nos cinemas, nos espetáculos, nas ruas! Todo tipo de artefato imaginável é inventado para despejar decibéis diretamente nos ouvidos dos seus proprietários - artefatos que inevitavelmente vazam e atingem a todos, criando uma monumental e incessante cacofonia.   


Quanto mais eu penso nisto, mais certeza tenho de que os magos vindos do oriente andaram silenciosamente, perdidos em seus pensamentos, no seu caminho sob o céu  estrelado e luminoso na direção de Belém e do Grande Mistério. Todo o universo deve ter alterado a sua face, naquela noite longínqua e eternizada - e as nossas celebrações deveriam também repetir, por um momento que fosse, o nosso assombro mudo diante do Deus Feito Homem. Pelo menos em cada noite de Natal.

Imagino que o que mais agradaria ao Deus  recém-nascido seria exatamente este majestoso silêncio, no qual toda a criação consciente se prostrasse diante do véu deste Perfeito Mistério - cuja perfeição e incompreensibilidade são  justamente a nossa maior proteção e maior dádiva. 

Assim, diário amigo, me compraz imaginar esta noite solene, plena de profundidade, na qual as galáxias giram silenciosamente em torno de uma Criança ao mesmo tempo divina e humana, o incomensurável Presente dado a toda a humanidade. Deveríamos todos ser  "o quarto mago", e caminhar com os outros, mais sábios, pela mesma trilha - seguindo a estrela  luminosa e calma na noite mágica. Nossos pés mal tocariam o chão, e as coisas todas do universo teriam seu verdadeiro sentido subitamente revelado e nítido: mesmo que depois esquecêssemos esta  Revelação, pelo tempo e pelo espaço desta noite ela teria sido compreendida por nós, e nos transformaria para sempre. Saberíamos que o sopro divino nos sustenta,  reconheceríamos quem somos, verdadeiramente - e em vez de folhas rodando num torvelinho, voltaríamos a ser como  pássaros que voam segundo um propósito.

Eu preciso deste silêncio, querido diário - e eu o tenho,  imenso e puro como uma abóbada de cristal.

Que todos também tenham a sua Noite Silenciosa neste Natal  são os votos da sua - sempre enlevada diante do Mistério contido nele -

Rainha







domingo, 14 de novembro de 2010

O Codex Voynich

Diário querido,


Hoje eu pensava em deixar registrada nesta página uma lista das coisas tremendas que andam acontecendo por aqui, todas terríveis! Vamos mal, diário - vamos pessimamente! A tal da "escalada da violência"chega  a alturas cada vez maiores: agora, os bandidos se ocupam não mais em roubar carros, mas em incendiar carros! Jogam gasolina e tacam fogo! Imagine-se o pavor das pessoas, na antiga São Sebastião do Rio de Janeiro, hoje transformada em aterrorizante Babel sob o domínio do tráfico! Me contaram que os bandidos estariam "se vingando" do fato de terem sido expulsos para paragens mais distantes - já que a polícia, segundo também me informam, ocupou os morros de frente para o mar da zona sul! Eu não pretendo mais pisar lá, naquela que foi a minha amada cidade por tantos anos: e creio que nunca mais verei o verde da floresta em volta da casa do Alto, a não ser com os olhos da memória... Nem os macaquinhos da dona Norma, se é que ainda existem! Adeus Lagoa, adeus praias, adeus aterro do Flamengo, Urca, Cristo Redentor e Pão-deAçúcar! Adeus Guanabara, que vai morar na minha lembrança ainda com o reflexo do anúncio da Salutáris, e a garrafa que derramava luz nas águas da baía em cintilantes tracinhos! 


Bem, caro diário - como eu disse, esta ERA a idéia: uma espécie de ode à cidade perdida, ao país perdido para os orangos estúpidos que  destroem tudo sem a menor piedade. Mas não é o que farei, afinal: a lista era tão grande, as coisas a dizer tão amargas, que eu desanimei e resolvi deixar para outro dia menos melancólico do que este domingo cinzento. Hoje eu falarei do chamado Codex Voynich, um manuscrito medieval que há alguns meses ocupa parte importante da minha curiosidade, e cujos desenhos venho copiando laboriosamente, sem ter dado um único passo na direção de entender o que vem a ser aquele fascinante mistério!


A história é a seguinte, em resumo: no começo do século XX, um livreiro alemão especializado em vender raridades bibliográficas para milionários e aristocratas viajou para uma daquelas encantadoras cidadezinhas italianas, onde velhos monges de um velho mosteiro haviam posto à venda sua mais velha ainda biblioteca. Uma triste realidade, diário: os antigos pergaminhos, tão custosamente reunidos, e a tão duras penas conservados juntos, seriam separados, para passar a fazer parte de coleções esparsas, talvez para que um ricaço entediado mostrasse a seus contemporâneos mais um símbolo de status. Bom, enfim, caro diário, este é o destino das coisas, sei muito bem! E foi melhor assim, no caso - uma vez que  depois viriam duas guerras mundiais, e talvez o velho mosteiro e sua bela biblioteca fossem destruídos pela sanha ou pela ignorância dos combatentes. O fato é que o livreiro alemão, depois de ter avaliado competentemente os lotes à venda e separado os que lhe interessavam (já na certa pensando nos possíveis compradores para aqueles tesouros), num último gesto, quase como um afterthought, passou a mão num pequenino opúsculo ilustrado, escrito em caracteres que ele não conhecia, e que, como ele mesmo afirmou mais tarde, escolheu apenas "por causa das ilustrações". Que, embora não tivessem o rico e detalhado aspecto das iluminuras medievais com as quais o livreiro estava acostumado, possuíam uma certa qualidade artística que prendeu a sua atenção. Eu diria, caro diário,  que o livrinho mais ou menos obrigou o livreiro a levá-lo junto com os outros tesouros!


Bem, avante. O nome do livreiro, como você certamente já sacou, era Herr Voynich - e aquele manuscrito ficou, portanto, conhecido como o "Codex Voynich". Herr Voynich, além de alemão, era judeu - e suficientemente inteligente e rico para ter percebido, anos depois, que boa coisa não viria para os judeus da Europa por parte de Adolf Hitler e  de Joseph Stalin: e mudou-se, é claro, para a América - acompanhado, pois tomou esta providência a tempo, de sua coleção de livros raros. Folgo em dizer que Herr Voynich se estabeleceu tranquilamente em Nova Iorque e  logo estava muito bem, obrigado, com toda a sua família, uma loja no Upper East Side, seus belos livros a salvo e uma carteira de clientes invejável - e, até então, ninguém havia se interessado em comprar o Codex: e eu adivinho que Herr Voynich tinha um afeto especial pelo livrinho misterioso, seus desenhos intrigantes e seus textos escritos em caracteres desconhecidos. 


To make a long story short, o fato é que nenhum dos experts em linguística conseguiu descobrir a qual língua, viva ou morta, pertenciam os tais caracteres - e a coisa foi tomando uma proporção tamanha que começaram a aparecer diversos desses doutos senhores para se oferecer, espontaneamente, para decifrar aquilo! E nenhum conseguiu! Para justificar esta  impossibilidade, naturalmente passou-se a pensar que o texto era codificado, e portanto um caso não para os experts em linguística, apenas: mas para uma ação conjunta deles e de experts em criptografia. A segunda guerra havia trazido um considerável progresso para a ciência criptológica, e logo também apareceram pessoas abalizadas nesta área se propondo a desmantelar o segredo do manuscrito; li que um desses especialistas, depois de uma olhadela perfunctória, afirmou que "em dois dias quebraria o código". 


Mas NÃO quebrou, é claro! O Códex Voynich permaneceu impermeável a todas as tentativas feitas - e desde então  técnicos da NASA, arqueólogos do mundo inteiro, palpiteiros, tutti quanti, têm se revezado no trabalho de entender o que está escrito ali. Submeteram os textos aos computadores mais bem programados para este tipo de tarefa - e NADA! A frequência dos caracteres e  a extensão dos vocábulos indica uma "linguagem natural"- e eu ouso dizer que o cursivo em que o texto foi escrito indica mais ainda a  naturalidade espontânea, a "fluência gráfica" de quem está escrevendo sem o menor esforço e sem a menor contrafação. E mais: eu tenho certeza de que TODO o texto foi escrito pela mesma mão, embora em mais de uma ocasião. E a MESMA pessoa também fez as ilustrações. 


Eu sei disso pelo fato absolutamente SIMPLES de ter feito o mesmo tipo de coisa centenas de vezes - desenhado uma coisa qualquer e depois ter escrito à volta, ou mesmo dentro, dos limites do desenho! Sem exatamente "programar", mas fazendo isto como um processo absolutamente natural, e é claro que intencional. 


Há páginas sem desenho nenhum, só com texto - assim como há algumas  com desenhos e legendas curtas, ou somente com desenhos. O livro se divide em quatro partes: a primeira trata de plantas, de esboços de plantas, completas com seus sistemas radiculares, caules, folhas e flores; a segunda parte mostra  adoráveis ninfas - sempre mulheres - nuas e singelamente desenhadas, perambulando por sistemas de tubos e válvulas - que a mim parecem ser sistemas vegetais, não animais. A terceira parte é cosmológica, cheia de estrelas e mandalas zodiacais, no centro das quais aparecem representações dos signos conhecidos, como o Carneiro, o Leão e o Arqueiro. E a última parte me parece um receituário, ilustrado por uma porção de potes, e jarros, e fornos, e toda a parafernália necessária para se fazer e guardar remédios ou conservas. Além dos ingredientes, é claro.


Um amigo se referiu a este conjunto singular como um grimório, um livro de magia: mas, a rigor, TODO livro não deixa de ser mágico, de certa forma - uma vez que é capaz de despertar faculdades e provocar sensações e ativar pensamentos e emoções em seus leitores.  O que evidentemente não significa que seja "mau", é óbvio! Apenas que toca e impressiona, através de uma via simbológica,  um território oculto - que é a mente do leitor. Há uma certa controvérsia, a respeito disto - da diferença entre um livro "mágico"ou um que deliberadamente se proponha a "executar" isto ou aquilo; eu creio que a distinção é vaga, e entendo essas coisas apenas como BOAS ou MÁS. E, pelo mísero valor que isto tenha, creio firmemente que o pequeno Codex Voynich é definitivamente benigno! 


O interessante é que não apenas a sua linguagem não foi decifrada, mas também as plantas ali representadas com tantos detalhes são desconhecidas, nunca encontradas, inexistentes no mundo real e visível. Como também são desconhecidos os sistemas tubulares e valvulescos, e  as mandalas estreladas não se referem a constelações existentes. Antes de morrer, e por absoluta falta de compradores interessados, Herr Voynich doou o Codex que leva seu nome à biblioteca de Yale, que  fez o estupendo favor de digitalizar e devidamente disponibilizar pela Internet, para os curiosos como eu, folha por folha da pequenina maravilha.


Venho então, querido diário, me ocupando em reproduzir muitos desses desenhos, com grande satisfação e talvez algum proveito. As cores são poucas, penso eu que os pigmentos são apenas TRÊS: um azul, um vermelho e um amarelo ocre. Com a mistura dessas três cores básicas  o autor conseguiu uma razoável variação de verdes, chegando a um lindo turquesa,  e alguma variação entre o marrom e o ocre, penso eu que usando também o pigmento da tinta com a qual escreveu o texto, e que é escura. E deixou o vermelho quase sempre puro, sem misturá-lo muito. O resultado, aos meus olhos, é encantador.


Esqueci de dizer que as indefectíveis "análises de carbono14" colocam o manuscrito entre os séculos XV e XVI - mas mais uma vez algo me diz que ele foi escrito duzentos anos ANTES disto, e talvez ainda antes. Não me pergunte por que, diário amigo: eu sou notoriamente refratária, assim como o Codex Voynich, aos deciframentos deste mundo... Talvez seja exatamente ESTE o motivo pelo qual eu o acho tão extraordinariamente próximo. Foi a palavra que me ocorreu, caro diário: tão próximo quanto os moleskines que se empilham nas minhas gavetas, cheios de desenhos e textos que  serão, quem sabe, encontrados num futuro distante, reliqua de um passado perdido.E que serão, eu temo,  igualmente  indecifráveis. 








quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Os macacos e o Brave New World

Diário,


Minha irmã Giselle diz, e eu concordo, que o Brasil é um país tão estúpido, e criou mecanismos tão grotescos em torno da sua própria estupidez, que NADA - inclusive  planos malévolos - pode realmente funcionar por aqui! Quando eu falo das abomináveis intenções do Foro de São Paulo ou dos paradigmas malignos da Nova Ordem Mundial, ela faz um olhar filosófico e diz -  "não se preocupe; não vão conseguir fazer nada disso aqui". 


Como naquele texto cômico a respeito das desventuras dos dois terroristas da Al Qaeda encarregados de bombardear a estátua do Cristo Redentor, que acabaram num hospital do SUS com um ataque severo de diarréia provocado por uma empadinha contaminada, depois de ter sido surrados por traficantes que os confundiram com membros de uma facção rival, a nossa VISCERAL incompetência e grotesca imbecilidade impedem, segundo ela, que qualquer tipo de ação organizada -  boa ou má - possa dar certo no Brasil, sil, sil.


Nosso destino não seria, portanto,  o "Brave New World", devido à nossa absoluta incapacidade de adotar os métodos necessários para a implantação do pavoroso paradigma:  seria, antes, uma espécie de Haiti piorado, no qual analfabetos retardados se auto-destroem numa sequência macabra de manobras de absurda ilogicidade, e onde a preguiça e a burrice competem entre si como "causa mais provável" da esculhambação generalizada - sem que seja possível, evidentemente, se chegar a qualquer conclusão a respeito. NUNCA teríamos a disciplina e a ordem mental indispensáveis para que fosse criada aqui a horrenda distopia huxleyana: e a nossa versão dela consistiria em um bando de imbecis sem moral tentando "administrar", via milhares de macacos mal-adestrados, uma paródia de "sistema" caindo aos pedaços.  


Em sendo assim, "frustramos o demo" - e as hostes do maligno só conseguem pífios resultados, diante da nossa brutal incompetência.


Eu quero estender esta análise, caro diário - para dela tirar uma  tese: a humanidade está se tornando burra, maciçamente estúpida, e é inevitavelmente levada a navegar, cada vez mais, entre centenas de arapucas  idiotas e  perigos fundamentados pela palermice. O primeiro sintoma da burrice visceral é a incapacidade de ligar causa e efeito, o que torna nulo o conceito de "consequência".  Não é que dentro desta imbecilidade "dois mais dois"  não sejam "quatro"; é muito pior que isso: é que  a IDÉIA de "dois mais dois" simplesmente deixa de existir!  Não só "não dá quatro" como não dá rigorosamente porra nenhuma - nem três, nem cinco, e nem quantidade alguma!


Eu sinceramente creio - e é este o tema desta carta de hoje a você - que Antonio Gramsci exatamente não previu  esta consequência, quando montou a sua estratégia de domínio das massas pela via  da imoralização, ou DES-moralização das referidas massas. Antonio Gramsci não sacou que, ao se anular a consciência, fecha-se, concomitantemente, o acesso a um atributo que fundamenta a cognição humana! E sem o qual esta cognição, esta "intelectuação", DEIXA DE OCORRER! A imoralização das massas está sendo conseguida, claramente conseguida, como Gramsci queria - mas trouxe, atrelada a ela,  como "consequência da causa", a completa imbecilização destas mesmas massas! 


É extraordinariamente interessante perceber que o "Brave New World", neste caso,  é uma impossibilidade metafísica - pela óbvia razão de que um bando de macacos não pode ser treinado para manter um sistema, mesmo que cada macaco seja "responsável" apenas por um pedacinho minúsculo deste sistema!  O domínio conseguido pela via da imoralização, da destruição da consciência humana, é uma falácia: o ser que resulta do processo de  imoralização não tem  capacidade cognitiva suficiente para que exista este domínio, muito menos  para que ele "sirva" a algum fim - em outras palavras, a "humanidade"  dominada por esta via simplesmente não será humana, não será "humanidade"! E, sem humanos para mantê-lo, entregue a meros primatas, o "sistema" - qualquer que seja ele - acabará por implodir, por se auto-destruir!


Que estupendamente perfeita CHAVE, que fabuloso Mistério a fechar o círculo de forma absoluta! 


Onde entra o Brasil nesta página ainda tão mal-alinhavada? Bem, entra como uma espécie de "demonstração visível" de duas coisas: da correção da análise da minha irmã e da  minha consequente tese, que eu julgo bastante precisa, e que pretendo posteriormente organizar de maneira mais adequada e menos precária - como você, querido diário, sabe que considero meu dever, minha alegria e meu destino.


Sua sempre sintética, no puro sentido do termo,


Rainha

domingo, 7 de novembro de 2010

Sobre o programa "Painel"

Diário,


Ontem, once more, assisti televisão: creio que o programa sobre a Brigitte Bardot me fez esperar que houvesse, quem sabe, mais alguma coisa interessante no panorama da TV paga (no da TV chamada "aberta"eu tenho certeza de que não há NADA, e só com  alguma indicação confiável eu entraria lá. Não sem antes providenciar uma antena adequada, é claro - implemento que não possuo), que não fossem documentários sobre leões, cavalos marinhos, tubarões (um favorito dos produtores, por alguma razão que me escapa inteiramente: há DEZENAS deles, e o tubarão me parece um animal sumamente desinteressante, if there ever was one! Uma água-viva tem muito mais potencial!), ursos polares ou insetos peçonhentos, aos quais já assisti todos.


Fui devidamente recompensada pelo programa "Painel" - no qual William Waack, dois ex-embaixadores e um historiador da Unicamp conversavam sobre o panorama econômico mundial. Confesso que, quando tomei conhecimento da presença do historiador da Unicamp, quase troquei de canal - para sorte minha, os outros 153.432 canais restantes exibiam uma bagaça tão estúpida que voltei, e decidi encarar fosse o que fosse que viesse pela proa.


Entenda bem, querido diário: não é que o programa, a conversa EM SI tenha me trazido alguma "novidade": mas, de certa forma, me forneceu um tema para reflexão - como você sabe, uma Rainha Caolha DEVE, é óbvio, ENTENDER, ou pelo menos TENTAR ENTENDER,  como funciona a terra de cegos na qual vive. 


Nenhum participante disse bobagem alguma, caro diário: todos os comentários foram pertinentes, sensatos, e corretos. Eu GOSTEI disso! Eu APRECIEI muito! O que eu achei interessantíssimo, e por isto registro aqui  em você, foi o fato de que a análise correta dos fatos NÃO provocou uma conclusão igualmente correta! Na verdade, querido diário, a análise correta não provocou conclusão NENHUMA: os doutos participantes, que demonstraram ser perfeitamente capazes de enxergar com límpida clareza a situação mundial atual, não tiraram desta análise correta NENHUMA conclusão. A análise nasceu, viveu e morreu sem gerar XONGAS!


É unânime a opinião de que o que "há de novo" é o surgimento da China como potência econômica mundial - e, como acuradamente percebido,  esta China está passando rapidamente de potência econômica para potência política, ou seja: está impondo, paulatinamente, um paradigma que não se resume no "ganhar mais dinheiro", e sim inclui o chamado "soft power", que é um modelo COGNITIVO. 
UAU! Ponto para os argutos participantes do programa! 


Também foi igualmente muito bem notado que a China se ocupa em compor parcerias comerciais, mercados: e que o Brasil, ora vejam só, está com a habitual cara de tacho vendo esses mercados lhe escaparem por entre os dedos - e, a continuar assim, se verá reduzido a fornecedor de commodities para a China: "cumprindo um papel de celeiro", como muito bem disse um dos presentes, não me lembro agora exatamente qual. 


Tudo perfeitamente analisado, em suma: e, caro diário, daí nasce - como você certamente já notou - a minha PERPLEXIDADE! Cada vez mais percebo que o paradigma racional PERMITE A ANÁLISE - mas que é o acesso ao Grande Portal que permite a SÍNTESE,  a face que completa a cognição humana, e na verdade a torna "HUMANA"! 


De que adianta analisar perfeitamente, se daí não sairá NENHUMA conclusão, mesmo as mais ÓBVIAS?! Os doutos senhores, pelo visto, não conseguem entender que não se trata exatamente da China - e sim de um MODELO, o modelo que imporá uma Nova Ordem sobre toda a humanidade! 


Levou-se uma hora inteira a explicar minuciosa e corretamente o que é que está acontecendo: e não sobrou nem mesmo um minuto para que se pensasse POR QUE É que tudo isso está acontecendo, e a que tudo isso LEVARÁ! E diga-se de passagem que levará o mundo INTEIRO! 


Sim, caro diário: a China age como age, o Brasil age como age, cada um age como age - e os tais senhores não vão querer me dizer que pensam que é "por acaso"- ou será que vão?! 


Levaram uma hora inteira, diário, para mostrar que "DOIS"  representam  "DOIS", e que o sinal de "mais" representa uma "soma"- e, diante do meu pobre queixo caído, NÃO terminaram o processo, e não falaram do tal do "QUATRO"!  Oh, diário! Eu não lhes nego o conhecimento e a cultura, que faço questão de elogiar! Eu apenas quero deixar aqui o registro do meu abissal espanto diante desta súbita "PARADA", desta espantosa "inconclusão"dos senhores doutores frente a  uma tão clara evidência: o RESULTADO da equação, cuja simplicidade é extrema! 


Sob a égide obrigatória  do NOBLESSE OBLIGE, eu  lhe afirmo, querido diário: celeiro seremos, mas NÃO  "por acaso" -  NADA, como os senhores doutores parecem não saber,  acontece "por acaso"! 


Tal idéia é estúpida, e jamais existiu senão como expressão da estupidez humana: aquela cujo limite se perde, cada vez mais, na distância insondável.


Sua fiel,


Rainha



sábado, 6 de novembro de 2010

Madame Bardot

Diário,


O canal pago GNT exibiu ontem à noite um documentário sobre Brigitte Bardot, que já faz muito tempo é ativista política e conhecida lutadora contra as malvadezas e crueldades para com os animais que a humanidade reiteradamente comete. 


Eça de Queirós escreveu um conto sobre um eremita que, vivendo uma vida  de penitência, solidão e sacrifício, um belo dia fica sabendo que um seu companheiro  está  morrendo à míngua. Para ajudar este companheiro, o  eremita arranca de um leitãozinho que cruza seu caminho o suculento pernil, que leva ao amigo para que ele recupere as forças. Quando finalmente o santo homem morre, e vai ser julgado diante do Criador, num dos pratos da divina balança um anjo coloca seus bons atos, seus sacrifícios, seu isolamento na busca da comunicação com o Transcendente, suas orações e exortações. Toda a corte celeste se maravilha, vendo o prato do Bem Praticado pesar cada vez mais, levando o eremita na direção do Paraíso - e todos já comemoram o evento quando, num gesto final, o anjo coloca no outro prato da balança uma única coisa: um porquinho agonizando numa poça de sangue. Para horror de todos, AQUELE prato pesa MAIS do que o que contém todos os bons atos praticados, e o eremita se despenha  nas profundezas do inferno.


Entre as mocréias de cara alisada e cotovelos pendentes, Madame Bardot, com seu gauloise aceso, suas muletas, seu rugalhal, sua pequena imagem de la Sainte Vierge levada no bolso do casaco, se destaca como um monumento a uma dimensão humana que rarissimamente se vê, sobretudo entre suas contemporâneas de beleza e fama - que me dão a impressão de que se alguém apertá-las vão APITAR, como aqueles bichinhos de borracha feitos para bebês ou cachorrinhos - e que passam a vida na busca desatinada de parceiros cada vez mais jovens. 


Madame explica que por metade da vida teve que parecer bonita sempre, atraente sempre, gostosíssima sempre; e ainda por cima precisava lidar com uma confusão de maridos, e amantes, e namorados: e cansou! Com um senso de humor ao mesmo tempo irônico e alegre, ela comenta - "eu tinha que ser linda todos os dias, e hoje  sou feia todos os dias: estou recuperando o tempo perdido!" 


Pesquisando mais tarde na Internet, verifico que Madame Bardot é coerente e é corajosa, diz na cara de todo mundo verdades julgadas inconvenientes pelo "politicamente correto" - e que, por causa de seus candentes e honestos desaforos, Madame vem colecionando processos nas cortes francesas! Durante o programa, ela diz que sabe perfeitamente que há, neste mundo, grupos de pessoas como ela, e que esses grupos e essas pessoas não conhecem uns aos outros: e é desses que ela gosta, com eles simpatiza, sem precisar conhecê-los de perto.  


Que fique aqui então, diário, esta petite homage a Mme. Brigitte Bardot, por sua sinceridade e por sua aflição diante da insensibilidade e da crueldade dos homens para com a criação indefesa! MOI AUSSI me compadeço deles, moi aussi empatizo inteiramente com ela e sua completa falta de "papas na língua", seus olhos aflitos pela matança a pauladas dos bebês-foca, sua ira incontida diante dos homens que arrancam as unhas dos ursos para fazer com elas um remédio que os chineses acreditam ser eficaz contra a impotência!  "MERDE, allors", diz Brigitte - e digo eu! Que se danem os chineses  e  sua impotência! 


E deixo ainda este bilhetinho a Madame Bardot:


Chère amie, um grande poeta brasileiro chamado Manuel Bandeira escreveu um lindo poema no qual São Pedro, diante da boa  Irene que lhe pede licença para entrar no céu, responde com alegre simplicidade: "Entra, Irene! Você não precisa pedir licença..."   -  


Pegando carona na bela poesia deste formidável poeta, eu lhe afirmo que  o guardião do Grande Portal  também receberá você com a mesma alegria, saudando:  "Soyez la bienvenue, Madame!"


Sua  solidária, mas não solitária,


Rainha



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Revelação

Diário,


Imagine que hoje, há poucas horas, no caminho para o moldureiro que me presta serviços há anos - estava eu ao volante do velho "possante", quando fechou o sinal em frente à Casa Itararé, antigamente famosa pelos seus salgadinhos enormes e seus importados variadíssimos (hoje já não sei como andam este tamanho e esta variedade, mas assim era). Distraidamente, eu pensava nos filés de excelente haddock que costumava comprar lá, quando - como o "raio fúlgido"do hino - me entra pela cabeça o seguinte pensamento: TODO O CONHECIMENTO HUMANO É REVELADO.


Levei um susto tão grande que meu pé escorregou da embreagem, diário amigo - e o "possante" deu um pinote pra frente e morreu!  Levei o próximo segundo inteirinho digerindo a revelação da revelação - e vi que era  verdade! A diferença entre mim e uma macaca que a esta mesma hora coça a barriga no alto de um pé de sapoti é meramente ESTA: eu tenho acesso à revelação, e ela NÃO! 


Não é à toa que o "segundo elemento" não será encontrado NUNCA, apesar dos ingentes esforços dos cientistas, mesmo dos cientistas quânticos: não se trata de uma "coisa", nem de um "sistema", nem de um "processo": trata-se do acesso a um portal! 


No longuíssimo espaço deste claríssimo segundo, diário, eu percebi por que vagamente me descontentava, até então, o uso do termo "bloqueio"- que eu aplicava, estupidamente, a algo que eu achava que era justamente uma "coisa", um "sistema"ou um "processo"- e me parecia  muito confusa, esta idéia de "bloquear uma coisa", "anular um paradigma"! Mas VEJA: em se tratando de um ACESSO, o acesso a um portal tão absolutamente fundamental, nenhum outro verbo é mais adequado do que "bloquear", e nenhuma outra explicação é tão satisfatória para o fato de que o bloqueio EMBURRECE o bloqueado! Pois se a INFORMAÇÃO revelada não é mais obtida, é óbvio que o indivíduo que fechou o acesso a ela emburrecerá, e emburrecerá de forma avassaladora.


A rigor, a humanidade deixa, velozmente, de compreender até o JÁ revelado: e mesmo este JÁ revelado se PERDERÁ! Quando o último humano bloquear o seu portal pessoal, o GRANDE PORTAL será finalmente FECHADO, e não mais existirá o CONHECIMENTO HUMANO, e portanto não mais haverá HUMANOS! A nossa humanidade, por conseguinte, vagueia segundo escolhas finitas entre dois pontos, entre o Transcendente que  TUDO DÁ  e nós mesmos que TUDO RECEBEMOS - numa série de percepções que entendemos como "o tempo que transcorre", sem saber que na verdade isto é uma interpretação - como qualquer outra - daquilo que recebemos como informação. 


Eu não sei se está sendo possível explicar a você, caro diário, exatamente o que eu  percebi neste tal "átimo de segundo", que se completou em si mesmo e fora do tempo "contabilizável": imagino que NÃO. 


Mas, de qualquer maneira, foi então que o sinal abriu,  eu religuei o "possante" e continuei o meu caminho para o moldureiro que me presta tão bons serviços - deixando para trás a Casa Itararé, onde se vendiam salgados enormes, importados variados, e um excelente filé de haddock.


Cada vez mais grata ao Transcendente que me  alimenta do Mistério, continuo sempre sua maravilhada,


Rainha

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Considerações felinas

Diário,


De cima deste costumado planalto que habito dá pra observar que o orangal está em tumulto: os macaquinhos sem alma e as pessoas estão, ao que parece, se desentendendo mais ativamente do que de hábito! A ruga vertical no meio da minha testa já virou uma funda vala, e estou percebendo que daquele "entrevero" não sairá boa coisa! 


Até adotei a velha posição de esfinge, para poder mais confortavelmente ficar observando o cenário: na verdade, a desconfiguração do cenário! Os oranguinhos arrancaram todas as árvores, e daqui do alto posso perfeitamente perceber que estão encurralando as pessoas para prendê-las numa espécie de curral disfarçado, para o qual algumas vão sem tugir nem mugir,  enquanto outras ainda estão paradas, olhando em volta. Há até as que se encaminham  espontaneamente, com aparente alegria, para  o cercadinho que limita o negócio: depois que os orangos alteraram a paisagem, eu suponho que elas pensem que estarão mais seguras se forem estabuladas, mesmo. Para os da minha espécie,  é absurdo - nós jamais iríamos para um lugar daqueles  sem oferecer a mais completa resistência. Mas pode também ser que as pessoas não estejam ENXERGANDO a cerca, porque, como eu disse, ela é bem disfarçada - embora NÃO, é claro, o suficiente para enganar olhos felinos.


Conservo uma certa nostalgia dos bons tempos em que os oranguinhos eram poucos e se limitavam a guinchar do alto das árvores - era irritante, mas em geral eles se calavam diante de um rugido. Os da minha espécie também eram mais numerosos:  infelizmente, os leões, hoje em dia, são tão raros! Muitos migraram, pelo que eu sei;  ouço o eco dos seus rugidos vindos de outras savanas, outros planaltos, outras covas em terras longínquas. Nesta, ficamos pouquíssimos. Curiosos, como sempre: continua a ser irresistível observar o movimento na planície lá embaixo.  Um ou outro oranguinho chega aqui em cima,  por enquanto solitariamente;  é claro que eu sei que, quando terminarem de enfiar todo mundo no estábulo, vão se dirigir para cá, atrás de nós. É inevitável que venham. Uma questão de tempo, apenas.


É um bocado chato que o destino dos felinos nobres tenha sido muitas vezes este, o de morrer lutando contra seu único adversário: o orango predador, um bicho estúpido e fedorento que nos vence pela superioridade numérica - e que NUNCA teria a menor condição de nos enfrentar a não ser assim, em multidões. Mas mesmo a certeza de que eu terei que encarar este desfecho não impede que, para além do vale desconfigurado, o céu seja de um luminoso azul, e  ventos limpos varram as savanas como varriam na minha infância: longe do lamaçal assolado pelo orango, longe dos ratos da peste e do cólera, fica a terra insondável na qual o leão se submete ao Cordeiro, e finalmente cumpre o seu destino ancestral. E é para lá que, como todos os meus companheiros de espécie, eu também partirei um dia.


Enquanto isso, cá fico, do alto desta escarpa, olhando os orangos estabularem os aturdidos, os cegos, os distraídos e os imbecis - como faz a esfinge de pedra que desafiou o tempo e até hoje mira, com a mesma curiosidade, o horizonte iluminado. 


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Rainha

sábado, 30 de outubro de 2010

Quando as crianças se tornaram PESSOAS

Diário,


Odd Magne Bakke é dinamarquês, doutor em Teologia, especialista em História da Teologia e História da missão cristã.
Eu não o conhecia - até comprar, através daquele bagulhinho Kindle, da Amazon, o livro chamado "When Children Became People: The Birth Of Childhood in Early Christianity", de sua autoria. 


O livro é muito bom - e, mesmo sem ter ainda terminado de lê-lo  (por causa da minha participação voluntária na atual  bagaça eleitoral, como você sabe, e que eu deixei que virasse a minha vida de pernas pro ar), já me provocou muita reflexão.


A humanidade contemporânea realmente perdeu a noção do SIGNIFICADO do Cristianismo como  paradigma. As pessoas ignoram o que foi o mundo antes dele - e por isso ignoram o que será o mundo sem ele... O mais sublime e elevado modelo que a humanidade conheceu está sendo abandonado - e a perda fará sangrar o homem em TODOS os âmbitos da condição humana. Em cada uma das dimensões que verdadeiramente constituem essa condição, desde as mais extraordinariamente elevadas até as mais simples, que a maioria das pessoas "take for granted" - a FALTA do paradigma cristão anulará conceitos que hoje esta esmagadora maioria não sabe mais de onde vieram:  e portanto não os CREDITA ao Cristianismo, mesmo tendo sido ELE que os trouxe para a humanidade! 


O tamanho deste paradigma, sua importância, a monumental civilização que nele se fundamentou - tudo está sendo PERDIDO: e perdido sem que as pessoas nem sequer saibam, compreendam, o que é que está contido neste TUDO, que o Cristianismo ergueu como a maior defesa, o melhor caminho, a mais precioso MAPA que a humanidade jamais conheceu. Defesa, caminho, mapa - rasgados, jogados fora, vistos como "inúteis", como "dispensáveis"! 


Os imbecis do anti-Cristianismo - como o intolerável Genésio Boff e o insuportável "Frei Betto" - OUSAM falar em "humanismo"- como se a NEGAÇÃO do paradigma cristão pudesse se referir, pudesse ter como objetivo o homem, em sua plena condição! O "humanismo" deles é falso, opaco, a VILÍSSIMA moeda que compra o retrocesso aos tempos em que o destino humano não era conduzido sob o entendimento vertical da nossa integração com o Transcendente Criador. E nos quais, entre outras MILHARES de coisas mal-compreendidas, ou não-compreendidas de modo algum, as crianças nem sequer eram pessoas! TORPES inimigos, estúpidos e cínicos!


Fica aqui a minha gratidão ao teólogo dinamarquês pelo seu livro, que eu SONHO em que todos leiam - e cujo lindo título já expressa uma clara VERDADE: o conceito de  infância NASCEU COM O CRISTIANISMO. 
E este conceito estará perdido quando o Cristianismo terminar como paradigma.


Há mais coisas, diário: mas nem tudo se faz num dia só, e a porcaria da campanha me deixou um tanto "desconcentrada" e necessitada de descanso, confesso! Quero o sossego de fazer desenhos para os amigos, e recopiar receitas das minhas bisavós para inventar um livrinho que me consola imaginar que  possa ser útil para as minhas bisnetas - num hipotético futuro no qual, francamente, não gosto muito nem de PENSAR! São atividades bastante BALSÂMICAS, se você me entende... 


Sua um tanto desolada, mas sempre firme,


Rainha

Ah, o Brasil!...

Diário,


Perdemos o Brasil, eu penso. Andava muito aborrecida com isto, mas de repente me dei conta de que ele já estava perdido há muito tempo! Foi lá trás, em algum longínquo e ensolarado "dia qualquer", que aquilo que era até então algo quantitativo tornou-se qualitativo - e o país chamado Brasil passou a ser mais um domínio do orango predador neste mundo de meu Deus. 


A interlocução, a conversa,  tornou-se difícil: tão difícil que, nos últimos tempos, ela passou a ser - pelo menos para mim - algo a ser deliberadamente BUSCADO, procurado de propósito. Não é mais possível, ou é terrivelmente difícil, FALAR com as pessoas e encontrar quem responda. Entre o coração humano e o duro  caroço que passa pela mesma coisa entre os orangos, ergue-se a parede intransponível da imoralidade.  E entre esses dois paradigmas vaga, desnorteada e babando, a multidão dos imbecilizados, cuja imbecilidade vai se tornando paulatinamente CRÔNICA, como uma espécie de reumatismo  moral que tolhe todos os movimentos do que um dia foi um intelecto.


Não há muito, em termos práticos, POR QUE lutar, nem O QUE defender: o predador avança em cima de uma multidão que JÁ É butim, independentemente deste avanço! 


Ando lendo, para me consolar, os escritos dos que viveram em outros tempos: e você não imagina como foi bom encontrar Hildegarde de Bingen, santa católica,  que gostava de plantar ervas, também de cozinhar, e foi  filósofa extraordinária e  extraordinária visionária - além de desenhar estupendamente, e ilustrar suas visões simbológicas com excepcional maestria! Passei a ser grande admiradora da Sibila do Reno, que entre outras coisas inventou uma linguagem à qual chamou de Lingua Ignota  - com seu próprio alfabeto, é claro:  as Litterae Ignotae - e recebeu a ordem divina de reproduzir suas visões e escrever sobre elas, coisa que lindamente fez! Foi ainda enfermeira, compositora (belíssima música!) e uma pessoa determinada, empenhada e corajosa: a quem ninguém, inclusive as autoridades eclesiásticas do seu tempo, jamais se opôs. E tudo isto sem jamais deixar de ser humana, alegre, informal e SIMPLES - sem um pingo de nhenhenhé!
E, imagine: Hildegarde gostava de se corresponder, e o fez com os Papas Eugenio III e Anastácio IV, e ainda com Bernardo de Clairvaux, o homem do Claro Vale, a quem eu também tanto admiro!


Não me parece que alguém tenha vivido melhor, mais completa e mais interessante vida. Como você vê, diário, ando procurando amizades na Idade Média - onde infalivelmente as ENCONTRO! 


Enfim: entre mim e a abadessa beneditina medieval se estabeleceu esta enorme empatia e verdadeira afeição -  que tem me servido de grande consolo na convivência com tanta coisa desagradável e francamente irritante do "mundo atual". Os orangos vão levar seu butim, que os acompanhará com a palermice esperada, e até com alegria. 


Não resta muita coisa a fazer senão assistir, e enquanto assisto fazer as mesmas coisas que fazia a minha amiga Hildegarde: senão com a mesma maestria incomparável, com certeza com a mesma alegria.


Sua medieval,


Rainha





domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Braviu

Diário,


Depois de ler a Veja e o Globo em sua edição dominical, me veio à lembrança um programa de rádio da minha infância, no qual um personagem chamado "Asnésio" conversava com seu pai "Leôncio" e compunha redações muito interessantes - aliás, MINTO! Este era um personagem da televisão! O do rádio, se não me engano, era um "Burraldo"! 


Ingênuos e excelentes tempos aqueles, em que os burros eram PERSONAGENS! Em que alguém CRIAVA burrices das quais a gente RIA, achando engraçadíssimo aquilo! Hoje, caro diário, não faria o MENOR SENTIDO fazer tal coisa: as burrices são tantas, tão estapafúrdias e tão REAIS que não há a menor lógica em esfurucar a cuca para compor um esquete; e nem ninguém acharia graça nenhuma, já que a burrice é precisamente o MODELO atual. 


Leio aqui que há uma exposição no Rio - eu sempre xereto as exposições, claro - na qual um dos artistas apresenta a obra "O Hidrante", composta de um hidrante. A revista avisa, não sem uma certa dose de ironia, que o referido equipamento contra incêndios foi elevado à categoria de "obra-de-arte".Também leio que, em uma escola de Maceió, 30% dos alunos são viciados em crack e fumam maconha nas salas de aula. A diretora já foi ameaçada de morte e não quer mais ser diretora do referido antro, mas não há ninguém para substituí-la. O colunista e escritor Veríssimo defende o direito das mulheres de "controlar seus ventres"- o que me provoca a súbita e surrealista visão  de milhões de mulheres fazendo uma passeata brandindo cartazes com "abaixo a diarréia!" -  e assassinar seus filhos, se porventura houver algum por lá. Indevidamente, é claro. Expulsa o folgadinho e mata logo de uma vez, que é pra ele aprender a não se meter onde não é chamado. O mesmo orango completa o raciossímio (belo termo azevediano!) censurando os "religiosos" por não dispensarem aos assassinos hediondos o mesmo tratamento que dispensam aos inocentes indefesos, e - vilania máxima! - quererem para esses últimos a vida e para os outros a pena de morte - coisa que ele considera INCOMPREENSÍVEL.  Também afirma que o casamento gay vai salvar a instituição do matrimonio, que está "falida e decadente", e pelo visto vai ganhar um saudável revival.


O suplemento dominical apresenta uma reportagem na qual uma juíza e um policial fazem a apologia da legalização das drogas. Não basta descriminalizar: o negócio, segundo ambos, é "legalizar a produção, o comércio e o consumo de todas as drogas". Segundo a juíza, "moralidade é algo individual" - como bunda, cada um tem a sua. E mais! A perspicaz oranga nota que, "por serem substâncias psico-ativas, são fáceis de serem demonizadas." Uau! É verdade, juíza, é verdade! Com que facilidade espantosa se demonizam substâncias psicoativas... Amazing. Vide os 30% dos alunos da escola da diretora ameaçada de morte: mór demonização, né não? Tadinhos.


Um leitor reclama de que não chamam Luifináfio de "presidente Lula", chamam só de "Lula". Ele considera essas pessoas preconceituosas e arrogantes. Bom, nessa eu não me enquadro, eu o chamo de "o bugre". 


Paulo Coelho, naquele tom maluco-beleza que passou a ser a sua segunda natureza, nos avisa doutoralmente que nenhum caminho leva a lugar nenhum, e os desafios "não são bons nem ruins: apenas desafios". Isso, é claro, se você for um "guerreiro sagrado". Não consigo imaginar nada mais estúpido, idiota e imbecil do que querer vencer um desafio meramente porque se trata de um desafio. Gostaria de estender um fio de pendurar roupa entre duas janelas do décimo andar de edifícios confrontantes e dizer a ele - Ei, Paulo, encara e atravessa - ou vai "amarelar"? 


A ÚNICA coisa que se salva do jornal e da revista é a carta de um leitor chamado Rodolpho que compara a aceitação de gays assumidos nas Forças Armadas a contratar um gago para desempenhar a função de telefonista.
Valeu, Rodolpho! Se não fosse pela sua carta, era perda total.


A VOZ do personagem defunto ecoa num rádio há muito tempo emudecido, a não ser por este remoto sinal dentro de mim - "O Braviu. O Bra-viu-é-um-pa-ís-de-ma-ca-cos-on-de-tu-do-é-mui-to-in-te-res-san-te". 


Meu Deus, o que fizeram do meu país, a minha pátria amada? 


Nem dá vontade de escrever mais nada. O jornal e a revista permanecem em cima da mesinha, como um testemunho do horror, do horror, do horror. Não há lixo para embrulhar, e me parece mais adequado, pelo menos como um ato simbólico, queimá-los na lareira, apesar do caloréu que nos assola. Coisa que eu farei em seguida.Em protesto pelas ações, pelas defesas, pelas reportagens, por tudo.


Sua DESOLADA,


Rainha

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vinte e sete bodes e ainda contando...

Diário,


O que é AQUILO? "EIXO ORIENTADOR"? "DIRETRIZ"?


Em minutos, chegaremos à sala 101. Retirem os sapatos na entrada e preencham as duas vias da  ficha  azul.. Quem tem alguma obturação de ouro, passe para o lado de cá. Próteses de titânio, atrás daquele senhor ali, que acabou de cair. A retirada é praticamente indolor. Eu disse "praticamente", senhora. Titânio é importante para a indústria nacional. A senhora está querendo se opor à geração de empregos para o proletariado? Ah, bom. Então silêncio! Estamos aqui para garantir os direitozumanos, exigência da sociedade depois de amplo debate. Como, que debate? Dirija-se àquela fila longa ali do canto, senhor. A dos desmemoriados. O senhor será examinado por nossos psicólogos, e  terá a oportunidade de repetir o amplo debate palavra por palavra, e se acertar tudo poderemos reconsiderar, senhor. Nosso objetivo aqui  é preservar o direito à memória e à verdade. 


"ÓRGÃOS E ENTIDADES ENVOLVIDOS NAS ORGANIZAÇÕES PROGRAMÁTICAS"? "ELABORAR OS PLANOS DE AÇÃO"?


Os proprietários de imóveis com até cem metros quadrados dirijam-se ao guichê quatro. Mantenham os títulos de propriedade em mãos. Aquele em que está o dirigente com o boné com a sigla M, S, T, senhora. Se será devolvido? Somente depois da análise, senhora. Não sei lhe informar em quanto tempo, senhor. A análise é plural e transversal, demora um pouco. Imóveis acima de cem metros quadrados é ali naquela fila, guichê cinco, a do nosso dirigente com a camiseta com a imagem do Che. CHE, senhor. Aquele que também está ali no retrato na parede, exatamente. Contribuam para a agilização do processo de transferência de renda. Em ordem, senhora. Imóvel de duzentos metros quadrados é... dirija-se à outra sala ao lado, senhora. Aquela com o cartaz com uma foice e um martelo amarelos em fundo vermelho, não tem como errar.Deixe os sapatos na entrada. SAPATOS, senhora! Alguma obturação de ouro? Pinos? Próteses? Marca-passo? Stent? A retirada é praticamente indolor, senhora. Sim, é feita por nosso pessoal especializado, dos grupos sociais vulnerabilizados. Grupos sociais vul-ne-ra-bi-li-za-dos, senhora. Para reaproveitamento. A senhora já ficou com isso muito tempo, agora deve dar a vez a outro, senhora.


"GRAU DE UTILIZAÇÃO DA TERRA"? "TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS"?


 Preencher o terceiro formulário em três vias, de cor verde. Não-homossexuais dirijam-se à sala 13, para triagem. Sapatos na entrada. Por aí não, senhor. Aí é a sala dos cidadãos dos complexos Brasil-1 e Brasil-2, somente é permitida a entrada de pessoas com crachá de indígena ou de etnias africanas. Com comprovante autenticado de perseguição étnica. Ah, o senhor tem o crachá... Mas vejo que está sem o comprovante de perseguido, senhor. Está sendo distribuído ali naquela mesa. Sim, é indispensável. Homossexuais é na sala ao lado, senhora. Senhor. Pode levar o menor, senhor. Senhora. Sim, inteiramente gratuita. Marque um x na ficha de opção sexual, senhor. Pode marcar pela criança também, claro. Ainda não decidiu? Nossa equipe de transexuais lhe dará a indicação então, senhor. Senhora. Para seu...sua...err...descendente também. Priorizamos a decisão individual por enquanto. O programa de alteração sexual coletiva ainda não está completamente implantado. 


"CONSELHOS GESTORES DO FUNDO NACIONAL DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL"? 
Profissionais de sexo, crachá à esquerda. Não, não há outra categoria, senhora: só profissionais de sexo e quebradoras de côco. Para as outras categorias não há necessidade de crachá. Fila ali perto da porta, retirar os sapatos na saída. Obturações de ouro, próteses, marca-passo, e stents ali ao lado. Sigam o nosso funcionário que leva a pessoa na maca.Não sei lhe informar, senhora. A senhora conhece a pessoa? Os parentes serão informados se for o caso, senhora. O procedimento é praticamente indolor. Não se pode impedir a escalada dos direitos do proletariado. 


Sweet Lord Jesus.


E eu não cheguei nem na metade.


Sua enfurecida, embora ainda contida,


Rainha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Os Barões Assinalados

Diário,

Em Bananalândia, como você bem sabe, os portugueses ancestrais não são muito valorizados. Descender de escravos ou de índios é sempre motivo de orgulho - e parece que dá um certo cachet ter, como dizia com alguma deselegância o pedantíssimo Fernandenrique,"um pezinho na cozinha". Mas os barões assinalados da Lusitânia e a marujada que com eles enfrentou os mares muito além da Taprobana não estão com essa bola toda, não: e são olhados com desprezo, como se houvessem "tomado dos índios" um Brasil que não existia, e que evidentemente não era uma pátria. Espantoso, mas é assim - e os corajosíssimos avós barbudos que entre gente remota edificaram Novo Reino que tanto sublimaram, e que fazendo uso de mais do que prometia a força humana desbravaram a Terra Brasilis e aqui se estabeleceram, criando essa pátria antes inexistente - são hoje mais ou menos execrados por seus netos, que os renegam, como se deles não viessem.

Não mereciam vir, mesmo, na minha opinião.
Tenho uma vasta coleção de "Histórias de Portugal", por diversos autores - e de vez em quando pego um volume ao acaso, para que não me saia da memória a história desses queridos ancestrais - e ontem aconteceu de me deparar com a transcrição da carta de João de Castro à câmara de Goa, escrita pelos meados do século XVI, e que é um exemplo de honra pessoal tão fundamente inspirado que resolvi registrá-lo aqui. O episódio é o seguinte: D. João de Castro, ao ver desmantelada a fortaleza de Diu pelo inimigo mouro, e na pressa de reformá-la por receio de outro ataque, precisou recorrer à câmara de Goa, para pedir emprestados vinte mil pardaus - dinheiro que ele mesmo não possuía. Não tendo outro penhor a oferecer pelo empréstimo, ofereceu suas próprias barbas: era um tempo em que a mencionada honra pessoal fazia valerem as barbas dos honrados.

Eis um trecho da carta:

"Eu mandei desenterrar Dom Fernando meu filho, que os mouros mataram nesta fortaleza, pelejando por serviço de Deus, e de El-Rey, nosso senhor, para vos mandar empenhar seus ossos; mas acharam-no de tal maneira, que não foi licito ainda agora de o tirar da terra, polo que não ficou outro penhor, salvo as minhas próprias barbas que vos aqui mando por Diogo Rodrigues de Azevedo; porque como já deveis ter sabido, eu não possuo ouro, nem prata, nem móvel, nem cousa alguma de raiz, por onde vos possa segurar vossas fazendas, mas somente uma verdade seca e breve, que me Nosso Senhor deu."

É realmente desconsolador olhar à minha volta e ver os bandos de oranguinhos naniquinhos e imoraizinhos a saltitar pelo mundo onde viveram esses gigantes - e a tornar mais e mais esse mundo indigno de memórias tão nobres. Fica a minha homenagem, pelo valor que tenha, certamente pequeno diante de tão valoroso feito.

Me alegra poder contar a você que a câmara de Goa enviou a quantia pedida, com uma honrosa carta, e juntamente devolveu o ilustre penhor.

Sua lusitana,
Rainha

O começo do vinte-dez

19 de janeiro de 2010

Diário,

Escrevi hoje no orkut que o twenty-ten está me provocando a impressão de que abriram o ralo de uma "banheira universal"e que vamos todos, universo e nós mesmos junto, é claro, ser sugados pelo redemoinho (rodamoinho? "Rodamoinho" é muito mais bonito, sugere alguma coisa PRODUTIVA. "Redemoinho" lembra rede, aprisionamento) que se formou.

Não sei se foi aquele terremoto haitiano, e a consequente mistura de sofrimento, caos, violência e brutalidade que ele provocou, e que remete a um tipo de barbárie vagamente inumana. Sendo que MAIS inumana ainda é a brigalhada de uma suposta "classe dirigente" que se ocupa em decidir quem vai mandar em quê, enquanto os velhinhos morrem um por um de fome e sede em cima de trapos numa praça abandonada entre ruínas, depois que foram embora as crianças que lhes roubaram os últimos bens - um pedaço de biscoito, um relógio que não funcionava, uma bengala partida e uma dentadura quebrada.

Me contam que o Haiti sempre foi "assim mesmo", tratado aos pontapés por quem passou por lá e por quem permaneceu por lá. Não deveria ser possível, mas parece que o impossível é, afinal de contas, possível: num mau sentido, mas é.

No Brasil talvez se viva e morra do mesmo jeito, sem reclamar dos roubos nem dos pontapés. Desconfio muito que sim, há algo em comum entre parte de nós e os velhinhos haitianos, e entre outra parte de nós e os ladrões do pedaço de biscoito e da dentadura quebrada. O Haiti é um fantasma dickenseniano, assombrando o começo do twenty-ten como uma ameaça futura: será isto o que nos espera a todos, a resistência silenciosa e curta dos velhinhos diante dos ladrões infanto-juvenis que lhes roubam por brutalidade as inúteis dentaduras e bengalas, enquanto os dirigentes discutem quem vai mandar no quê?

O redemoinho-rodamoinho começa a me parecer uma alternativa coerente.

Espero que amanhã faça sol, e a pata e a galinha resolvam voltar a botar ovos. Me disseram que isso TAMBÉM é "assim mesmo", e eu ACREDITO - mas de qualquer maneira o fato contribui para a sensação de que aconteceu "alguma coisa", e que de alguma forma hoje estamos pior do que ontem - e amanhã estaremos pior ainda que hoje.

Sua pessimista,

Rainha